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3 August 2012

Tesouros em Sélestat

Beatus Rhenanus
A Bibliothèque Humaniste de Sélestat (França) data de 1452. Contém manuscritos e impressos da biblioteca da famosa escola latina de Sélestat (1450–1530) e o espólio do humanista e classicista Beatus Rhenanus (Beato Renano).
Decorre desde 2009 o projecto de digitalização integral e disponibilização on-line das obras conservadas na Biblioteca Humanista.

Damião de Góis, por Albrecht Dürer
Entre outras pérolas, estão disponíveis um caderno de apontamentos de Beato Renano, estudante em 1505 na Universidade de Paris e, entre a correspondência recebida, duas cartas de Damião de Góis, uma datada de 24 de Novembro de 1540, e outra de 1 de Junho de 1542 (ambas publicadas por Amadeu Torres no vol. IX dos Portugaliae monumenta Neolatina, Damião de Góis, Correspondência Latina. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2009).

Para além da importância que as cartas terão para os estudiosos da cultura humanista portuguesa, saliente-se o facto de a carta de 1540 ser inteiramente autógrafa (a de 1542 tem só a assinatura de Damião de Góis no final).

Uma biblioteca digital cuja consulta se recomenda vivamente.


3 July 2012

Álvaro Fragoso, uma escrita invulgar num percurso arquivístico atribulado

Em 1990, Armindo de Sousa, no seu seminal trabalho sobre as cortes medievais portuguesas, elaborou uma extensa anotação sobre um documento em papel, de natureza invulgar, que encontrou na Torre do Tombo, com a cota Suplemento de Cortes, maço 2, doc. 19bis. Nesse caderno, truncado, e onde o autor se identificava como Álvaro Fragoso, eram alistados os vários documentos que se encontravam no cartório camarário eborense e que continham sobretudo capítulos de cortes, sendo o seu conteúdo resumido sumariamente. Foi redigido nos anos finais do século XV. Inicia-se esse documento no fólio xbij, já a meio do resumo de capítulos das cortes de D. Duarte de 1433, e termina no verso do fólio xxxij, com os resumos dos capítulos das Cortes de Lisboa de 1498, constituindo assim um caderno de 8 bifólios.


Ora, Armindo de Sousa aventara, com precisão, que se trataria de um instrumento de trabalho, mas não acertou quanto ao seu objectivo. Arriscara o insigne autor que se trataria de um documento que serviria à cidade em ulteriores cortes para elaborar os seus agravos e reagir de forma expedita às negociações com outras representações parlamentares e com a Coroa.
Um outro documento existente na Torre do Tombo lança uma primeira pista sobre a função daqueles resumos. Trata-se do Núcleo Antigo 15. O seu confronto com o primeiro documento que descrevemos apresenta uma clara afinidade paleográfica e material. A escrita muito característica de Álvaro Fragoso salta à vista, com a sua rejeição do comum encadeamento das letras numa cadência regular muito estilizada, singela e angulosa que evidencia uma perícia invulgar. A numeração deste segundo documento inicia-se no fólio Lj e termina no fólio [Cbij] e uma comparação dos dois documentos confirmou terem feito parte de uma unidade primeva à qual foram sonegados ainda os fólios xxxiij a L... As marcas de água nos dois documentos são iguais (exceptuando o último caderno da segunda espécie) e as medidas das folhas são praticamente iguais com diferenças nos vários fólios inferiores a 5mm.


O que contém este Núcleo Antigo 15? Documentos régios outorgados à câmara de Évora: privilégios, respostas a agravos e sentenças, bem como ordenações e leis régias; mas também documentos de natureza memorialista concernente à moeda, pesos e medidas em vigor desde o tempo de D. Dinis. Confirma-se assim a convicção de Armindo de Sousa de que Álvaro Fragoso laborara intensamente na produção de um valioso instrumento de trabalho. Mas, com que fim?
No âmbito da reforma dos forais iniciada em 1496, trabalhava-se afincadamente na câmara de Évora na viragem do século. Era necessário negociar com a representação régia as novas cláusulas foraleiras e precaver os privilégios da cidade. Um homem, em particular, assumiu as rédeas do processo da parte da câmara de Évora e da região. Era precisamente Álvaro Fragoso, cuja peculiar caligrafia o trai num terceiro documento que encontrámos: os apontamentos que coligiu sobre a reforma do foral eborense, em particular sobre os novos preços cobrados pelos rendeiros da portagem na cidade e que, a seu ver, em muito prejudicavam os seus moradores (TT, Gavetas, XX-11-38 — o papel, dimensões e marca de água diferem dos outros dois documentos). O que nos interessa para o caso são os instrumentos que ele produziu no âmbito desta negociação com a Coroa. A dado passo, no verso do terceiro fólio deste último documento, a propósito das “cousas que se mostra de que se leua portajem”, Fragoso é claro: “porque no cartoreo e arcas da camara desta çidade se nom acha outra escritura a jsto tocante senom este antigoo e verdadeyro forall senpre guardado e costumado”, aludindo então expressamente a diversos diplomas régios que defendiam a posição eborense, “O quall priujllegeo e cartas delle com a confirmaçam de vosa alteza a dicta çidade aquy apresenta”.


Verificamos assim, à luz das características paleográficas, que o Suplemento de Cortes maço 2, doc. 19bis e o Núcleo Antigo 15 foram redigidos por Álvaro Fragoso, enquanto representante da cidade de Évora, para defender os interesses da câmara no âmbito das negociações para a emissão de um novo foral, e para além delas, inclusivamente num âmbito regional. É que Álvaro fragoso era também, já em Novembro de 1500, “procurador emlegido pera os feitos dos foraees dos povoos e lugares da comarca d’antre Tejo e Odiana” num feito que corria entre o concelho de Odemira contra o Conde de Odemira e, mais tarde, em Julho de 1503, também o procurador da câmara de Évora num pleito que correra no despacho dos feitos dos forais, portagens e direitos reais dos Reinos e que opunha a edilidade eborense ao alcaide-mor da cidade, D. Henrique Henriques.
São assim três documentos com percursos arquivísticos muito diversos e que convergiram ao longo do tempo para uma única instituição, o Arquivo Nacional, com partida em Évora e hipotéticas passagens por Santarém e Merceana (de acordo com as indicações arquivísticas apostas nos primeiros dois documentos), até chegarem à capital do Reino, e agora unidos por um fio condutor comum, o traço de Álvaro Fragoso. O seu percurso individual bem como o dos documentos que ele redigiu merecerão um estudo mais acurado no futuro.

27 May 2012

Escritas cursivas — workshop internacional

VI encontro do Seminário internacional permanente sobre escritas cursivas
Università degli Studi, Sala del pianoforte (vicolo Florio, 4)
Udine, 8 de Junho 2012

Le scritture corsive
tra oriente e occidente

Programa

Manhã
9.30 - GUGLIELMO ANTONUTTO (Università degli Studi di Udine),
La scrittura dal punto di vista della motricità
10.00 - Per una paleografia comparata delle scritture corsive:
PAOLA DEGNI (Università degli Studi di Bologna),
La corsiva greca di età romana
MAURO PERANI (Università degli Studi di Bologna),
La corsività interculturale delle scritture ebraiche
ARIANNA D’OTTONE (Sapienza - Università di Roma),
Scrittura araba e corsività. Alcune note
AYDA KAPLAN (Centre d’Études sur le Chrétiens d’Orient - Bruxelles),
La cursivité dans les écritures syriacques
12.00 - Discussione
13.00 - Pranzo
Tarde
15.00 - DENIS MUZERELLE (IRHT, Paris),
Retour sur d’anciennes hypothèses concernant le biseautage de la plume
15.30 - MARIA CRISTINA ROSSI (Scuola Normale Superiore, Pisa),
Le scritture degli intellettuali delle università medievali: l’esempio di Tommaso d’Aquino
16.00 - TERESA WEBBER (Cambridge University),
Further thoughts on the development and dissemination of Anglicana in the early fourteenth century: the career of Master Elias de Couton
16.30 - MARIA GURRADO (Paris),
Morfologia delle scritture librarie medievali: l’esempio della lettera s tra XIII e XV secolo
17.00 - Discussione

Organização
Laura Pani
Dipartimento di Studi umanistici
Università degli Studi di Udine
via Mazzini, 3
33100 UDINE
tel. + 39 0432 556655
laura.pani@uniud.it